O treinamento em levantamento aerofotogramétrico com drones foi realizado no período de 6 a 13 de maio de 2026, na Reserva Ecológica do Roncador (RECOR), localizada no Distrito Federal. A atividade reuniu servidores de diferentes áreas e representa um passo importante rumo à padronização do uso dessa tecnologia no âmbito da Instituição.
O treinamento foi estruturado pelos servidores Fábio Lobo, da Gerência de Geodésia e Cartografia (GGC) da SES/CE, e Fernando Barroso, da Coordenação de Cartografia (CCAR) da DGC, sendo ministrado por Fábio Lobo, com o apoio dos servidores Victor Marotta, da GGC da SES/DF, e Fernando Lins, da Seção de Base Territorial (SBT) da SES/PB.
Além dos servidores das unidades à frente do treinamento, participaram representantes da Coordenação de Geodésia (CGED), da Coordenação de Estruturas Territoriais (CETE) e da Coordenação de Meio Ambiente (CMA) da DGC/RJ; da GGC da SES/BA; das Gerências de Meio Ambiente e Geografia (GMAG) das SES/BA e SES/DF; da SBT da SES/DF; além da Gerência da Reserva Ecológica do IBGE.
O treinamento contemplou atividades teóricas e práticas relacionadas ao planejamento de voo, aquisição de imagens, processamento de dados e geração de produtos cartográficos, promovendo a troca de conhecimentos entre as equipes e fortalecendo a capacidade institucional para utilização de tecnologias de aerolevantamento aplicadas às atividades de geociências.
De acordo com o tecnologista Victor Marotta (GGC-DF), o curso foi estruturado em duas etapas. “No primeiro dia fizemos uma revisão teórica, abordando conceitos de aerolevantamento e aerofotogrametria. Agora entramos na parte prática, que envolve a coleta de pontos de controle e de checagem, além da execução do voo com drones”, explica.
Nesta fase, as equipes realizaram o levantamento de pontos de controle em campo, fundamentais para garantir a precisão dos produtos gerados. Seis pontos foram selecionados e distribuídos ao longo da reserva, sendo marcados fisicamente e rastreados com equipamento GNSS de dupla frequência. O posicionamento utiliza o método PPP (Posicionamento por Ponto Preciso), o que permite alcançar precisão praticamente milimétrica.
“Esses pontos de controle servem para amarrar o ortomosaico — produto do aerolevantamento — ao sistema de referência da Terra. É isso que garante que a imagem gerada pelo drone esteja corretamente posicionada”, detalha Victor.
Além dos pontos de controle, o treinamento previu a coleta de 20 pontos de checagem, utilizados exclusivamente para o controle de qualidade do produto final. Cada ponto é ocupado por cerca de 30 minutos, e as coordenadas coletadas em campo são comparadas às coordenadas extraídas da imagem. “A diferença entre essas coordenadas é o que nos dá o padrão de qualidade do levantamento”, explica o servidor.
A expectativa é mapear a área com resolução aproximada de 10 centímetros, um nível de detalhamento elevado para diversas aplicações técnicas.
Potencial de uso institucional
Segundo Victor, o IBGE ainda não dispõe de procedimentos formalizados para levantamentos com drones – ainda conta com uma frota reduzida de equipamentos. “O drone é uma ferramenta, assim como o GPS. Ele pode ser usado para mapeamentos mais precisos, apoio a procedimentos cadastrais, inspeções, produção de croquis e até para acessar áreas de difícil ou arriscado acesso, aumentando a segurança operacional”, afirma.
O treinamento tem como objetivo central nivelar o conhecimento dos servidores e subsidiar a criação de normas internas que definam desde os procedimentos de operação até quem pode operar os equipamentos. “A ideia é estruturar um manual e padronizar o uso da ferramenta dentro do IBGE, aproveitando o potencial que muitos servidores já conhecem na prática”, destaca.
Com profissionais atuando nas áreas de cartografia, geociências e meio ambiente, a expectativa é que o conhecimento adquirido seja multiplicado nos estados e incorporado às rotinas de trabalho da instituição. “Explorar esse potencial de forma organizada é o próximo passo”, conclui Víctor.
Segundo José Henrique da Silva (CETE/DGC), a utilização de drones apresenta grande potencial para as bases territoriais, por exemplo, no mapeamento de áreas quilombolas e indígenas (PCT’s), na realização de pré-mapeamentos de áreas para atualização de divisores de águas estaduais e municipais, bem como na identificação de locais onde há indefinições quanto à localização de moradores para a gestão municipal, entre outras aplicações.
Palestra sobre Legislação e Segurança Operacional para Operação de Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARPs)
O treinamento contou ainda com a participação especial, por convite, do servidor Felipe Seino, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Na abertura do evento, no dia 6 de maio, Felipe ministrou a palestra sobre Legislação e Segurança Operacional para Operação de Aeronaves Remotamente Pilotadas (ARPs) no Brasil, abordando o marco regulatório da ANAC, do DECEA e da ANATEL e os procedimentos de autorização de voo aplicáveis a levantamentos com drones — tema fundamental para qualquer equipe que inicia atividades sistemáticas com essa tecnologia.
A contribuição foi recebida com grande entusiasmo pelos participantes. O IBAMA possui hoje uma das maiores frotas de drones do setor público federal, com cerca de 150 equipamentos em operação e estrutura dedicada desde 2017 — o que confere ao órgão uma experiência ímpar e altamente complementar ao processo de capacitação do IBGE. A palestra de Felipe Seino não apenas situou os servidores do IBGE no marco legal vigente, como abriu portas para uma troca de experiências entre as duas instituições que pode resultar em ações conjuntas futuras no campo do aerolevantamento aplicado à gestão ambiental e territorial.
A presença do IBAMA neste treinamento reflete a convergência natural de interesses entre os dois órgãos: enquanto o IBGE avança na normatização do uso de drones para fins cartográficos, geodésicos e ambientais, o IBAMA já opera com esse instrumental de forma consolidada no monitoramento de biomas, unidades de conservação e ações de fiscalização. A parceria entre as instituições, inaugurada simbolicamente neste treinamento, é um caminho promissor para a otimização de recursos e a elevação da qualidade técnica dos produtos gerados pela administração pública federal.
Conectividade em campo: o papel pioneiro do DNIT-GO e da Starlink
Uma das inovações logísticas do treinamento foi a disponibilização de acesso à internet por tecnologia Starlink dentro dos limites da Reserva Ecológica do Roncador — solução que se mostrou decisiva para o funcionamento do workflow de processamento fotogramétrico remoto adotado. A iniciativa foi viabilizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes de Goiás (DNIT-GO), que emprestou o equipamento terminal Starlink e assumiu os custos operacionais durante todo o período do treinamento, sem qualquer ônus para o IBGE.
A conexão de alta capacidade e baixa latência permitiu que as equipes realizassem o envio das imagens coletadas em campo diretamente ao servidor de processamento fotogramétrico, em tempo real, sem depender da infraestrutura de rede convencional disponível no local. Isso viabilizou a integração do workflow remoto — com o processamento sendo executado via VPN na workstation da GGC-CE em Fortaleza — como parte do próprio programa do treinamento, algo que não seria operacionalmente possível sem a disponibilidade de banda adequada no campo.
O uso da Starlink em um treinamento institucional do IBGE dentro de uma unidade de conservação representa um marco na modernização logística das atividades de geociências em campo. A generosidade e o espírito de cooperação interinstitucional do DNIT-GO foram fundamentais para que essa experiência se tornasse possível, e merecem reconhecimento explícito nesta nota.
Experiências prévias com o uso de drones em campo
A DGC, por meio da Coordenação de Estruturas Territoriais, realizou uma série de campanhas em 2025 para atender a uma demanda do STF relacionada à conferência da divisa entre Bahia e Minas Gerais.
“Realizamos um estudo de 1.700 km ao longo de toda a extensão dessa divisão”, destaca José Henrique. O relatório das atividades está em fase final de elaboração.
Fábio Lobo (GGC/CE), tecnólogo em geoprocessamento, concluiu doutorado em 2022 com pesquisa sobre o uso de drones e modelos digitais do terreno. Para ele, o IBGE pode ampliar e normatizar o uso desses equipamentos, seguindo o exemplo do Ibama, que já conta com cerca de 150 drones e estrutura específica desde 2017. “A ampliação depende da aquisição de equipamentos, do treinamento de pessoal e da definição de diretrizes de uso”, afirma.
Os drones apresentam múltiplas aplicações, com destaque na cartografia, na base territorial e nas áreas ambientais, contribuindo para a geração de produtos cartográficos e a verificação de áreas remotas ou de difícil acesso.
Aplicações práticas no trabalho
Para os participantes, a experiência já aponta ganhos concretos para o dia a dia. A servidora Milca, da GGC/DF, destaca o caráter prático da capacitação.
“O uso de drones tem grande potencial para apoiar atividades de campo, como operações de checagem e levantamentos. É uma tecnologia relativamente nova para muitos de nós, mas que pode ser muito bem aproveitada”, avalia.
Fábio Lobo ressalta que uma das principais vantagens é a agilidade no uso em campo. Segundo ele, a ferramenta permite registrar dados e imagens antes e após intervenções, possibilitando comparações ao longo do tempo e análises mais precisas.
Humberto Nappo (GMAG/DF), que também participou do treinamento, destaca a aplicação no monitoramento ambiental. “Os drones podem ser usados na checagem de áreas com vegetação invasora, permitindo avaliar sua progressão em áreas de preservação, como a Reserva Ecológica do IBGE”, afirma.
A percepção dos servidores reforça a importância da iniciativa, que combina teoria e prática e amplia o uso de tecnologias inovadoras nos diferentes processos do IBGE.