Thamilles e colegas pesquisadores no laboratório da Recor. Crédito: Michella Reis

Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) investigam nos ecossistemas da Reserva Ecológica do IBGE como o componente arbóreo do Cerrado ajusta suas estratégias ecofisiológicas e hidráulicas em resposta às variações na disponibilidade hídrica. Ao analisar um grupo diversificado de espécies, o estudo busca elucidar os mecanismos de resiliência frente às secas prolongadas, cuja frequência tem aumentado devido às mudanças climáticas.

A disponibilidade hí­drica é um dos principais fatores que determinam a organização funcional da vegetação do Cerrado. Ao longo do bioma, forma-se um gradiente contínuo que vai desde áreas savânicas mais secas até as matas de galeria, associadas a cursos d’água. Esse gradiente atua como um importante filtro ecológico, influenciando quais espécies arbóreas conseguem se estabelecer, crescer e sobreviver em cada ambiente.

A pesquisadora responsável, Thamilles Santa Barbara Sousa Franco, menciona suas inspirações para fazer esse trabalho começaram com o amor à natureza ensinada por sua família. “A inspiração para seguir pela ciência veio de professores que eu tive durante a graduação e me despertaram. Eles viram esse interesse que eu possuía, a curiosidade, os questionamentos que levantava, e disseram que valia a pena seguir esse caminho. A ciência tem que ser mais que coletar dados – é o básico que a gente faz em uma pesquisa. Eu senti a necessidade de comunicar aquilo que eu fazia, saber conversar e falar sobre o que faço para quem está lá na ponta ou vive desse espaço. Isso me fez entrar no doutorado, querer falar sobre isso e aprender com quem vive aqui também – a gente aprende muito. Juntar o pensamento científico com o empírico me motivou a estar aqui”.

Mudanças climáticas e desafios para o Cerrado

Nos últimos anos, ecossistemas tropicais têm registrado um aumento significativo na mortalidade de árvores, fenômeno associado à intensificação de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas. No Cerrado, esse cenário é ainda mais preocupante. O bioma é atualmente reconhecido como a savana mais ameaçada do planeta, resultado da combinação entre intensas pressões antrópicas – como desmatamento, fragmentação de habitats e expansão agropecuária – e os efeitos crescentes das mudanças climáticas.

Esses fatores representam barreiras significativas para a manutenção da biodiversidade e para iniciativas de restauração ecológica, tornando fundamental o avanço do conhecimento cientí­fico sobre o funcionamento da vegetação nativa.

Contribuições do estudo

Crédito: Michella Reis

Thamilles menciona que a ecofisiologia busca entender como a vegetação funciona. “A vegetação está interagindo com esse meio em que ela está inserida e dentro do cenário que a gente está vivendo, do aumento das temperaturas no mundo inteiro e secas cada vez mais intensas e frequentes, compreender como essa vegetação responde a essas mudanças é fundamental. Nesse cenário, vejo a aplicação da minha pesquisa como um norte que ajuda a entender a importância de manter a vegetação em pé, funcionando e a sua importância não só para o ciclo da água (chuvas), mas lembrar que a floresta é um espaço onde, além da fauna e da flora, existem pessoas que vivem ali e do que tem nela. A pesquisa não se resume a entender como esse estrato arbóreo funciona, também apresenta uma pegada ecológica e a importância da conservação desse ambiente para as próximas gerações”.

Rayane Béu, pesquisadora participante e realizando seu pós-doutorado no projeto CARBS, complementa de forma sinérgica o trabalho da Thamilles. Usando os mesmos métodos, elas conseguem responder diferentes perguntas. Seu trabalho avalia como a disponibilidade de nutrientes afetam as estratégias hidráulicas de árvores. Dependendo do solo, as árvores podem lançar mão de estratégias mais aquisitivas de nutrientes e isso pode impactar em sua resistência a seca. Os dois trabalhos se conectam para fazer a avaliação hidráulica e resistência a seca das árvores do cerrado. As pesquisas contam com o financiamento dos projetos CARBS e DIVERSIFLEX, e estão sob orientação do professor Dr. Augusto Franco, docente da Universidade de Brasília.

Essas duas mulheres, cientistas brasileiras, junto com sua equipe de campo, estiveram durante o mês de abril na Reserva Ecológica do IBGE, coletando e analisando dados com imenso potencial e valorização da natureza e do cerrado.