A Rádio Senado convidou o gerente da Reserva Ecológica do IBGE, Mauro Cesar Lambert de Brito Ribeiro, para comentar, em entrevista, os 50 anos da Recor. A conversa, conduzida pelo repórter César Mendes, foi ao ar no dia 19 de fevereiro e está disponível no site do Senado.

A seguir, apresentamos trechos da entrevista, na qual Mauro aborda o cinquentenário da Reserva e compartilha informações relevantes sobre a Recor.

César Mendes: Mauro, explica para nossos ouvintes o papel que essa Reserva desempenha nesse contexto das áreas ainda preservadas com as características originais do Bioma Cerrado aqui no Distrito Federal?

Mauro Ribeiro: Essa é uma área que compõe, junto com outras áreas contíguas, zona de preservação de vida silvestre da APA Gama Cabeça de Veado. A APA Gama Cabeça de Veado é uma área de preservação ambiental com 11 mil hectares bem preservados e compõe um dos três blocos da Reserva da Biosfera do Cerrado aqui no DF. Outro bloco é o Parque Nacional de Brasília e o terceiro bloco é a Estação Ecológica de Águas Emendadas. Essas três áreas consideradas áreas núcleo da Reserva da Biosfera do Cerrado são extremamente importantes do ponto de vista de conservação de biodiversidade, conservação de mananciais de água para o próprio Distrito Federal. Bem como para preservar o patrimônio cultural de Brasília. Brasília é uma cidade que é duplamente patrimônio da Unesco, patrimônio cultural (Plano Lúcio Costa) e patrimônio ambiental com a Reserva da Biosfera do Cerrado, que está no topo do domo de Brasília. E esse patrimônio ambiental está protegendo o patrimônio cultural.

César Mendes: O Mauro estava me explicando que se a gente considerar o Lago Paranoá como uma bacia, então, essas áreas de preservação existentes estão nessa parte mais elevada que cerca a bacia onde estão os mananciais formadores do Rio Paranoá, que hoje é o Lago Paranoá.

Mauro Ribeiro: Perfeito! Essas áreas estão protegendo esses mananciais do Lago Paranoá e prestam serviços ambientais extremamente importantes para a sociedade, que muitas vezes não são percebidos.

César Mendes: Agora, a Reserva Ecológica do IBGE, no caso, não é uma área para visitação? É uma área dedicada a pesquisa.

Mauro Ribeiro: Ela é uma área dedicada às pesquisas. As pesquisas que a gente desenvolve há 50 anos, com perto de 800 projetos de pesquisa já foram conduzidos, mais de 1.400 trabalhos científicos publicados. Essa se tornou a área mais importante de produção de conhecimento científico no Bioma Cerrado. Embora ela seja uma área prioritariamente de conservação da biodiversidade e pesquisa científica, a gente recebe visitas guiadas. Então, não é uma área aberta a visitação, mas todas as pessoas que querem visitar, elas entram em contato com a gerência, solicitam autorização e a gente emite uma autorização e destaca um servidor para acompanhar essa pessoa, para ela possa ir a campo, ver os projetos de pesquisa em andamento, as ações de conservação, as coleções científicas – exposições desse acervo de conhecimento. Só para dar uma ideia, já recebemos mais de 4 mil visitas oficiais de instituições de pesquisa, organismos internacionais, escolas e a sociedade de maneira geral.

César Mendes: E para além do patrimônio ambiental propriamente dito. O cerrado preservado lá, a gente visitando o site pela internet a gente vê tem o Herbário do IBGE, as coleções zoológicas. Fala um pouco para nossos ouvintes o que é que tem lá na Reserva além do cerrado conservado.

Mauro Ribeiro: Além do cerrado conservado, nós temos uma zona de infraestrutura que dá suporte a essas pesquisas e a conservação. Então, como elementos fundamentais dessa zona de infraestrutura a gente tem coleções científicas importantíssimas, pois são como um catálogo ou biblioteca de todas as espécies coletadas. Só dentro da Reserva, são mais de 4 mil espécies. E a gente fez coletas ao longo de todo bioma cerrado. Então, nosso herbário (coleção de plantas) é referência para o bioma cerrado. Temos coleções científicas zoológicas importantes também, sobretudo, de peixes, pequenos mamíferos e aves. Todas são coleções de referência. Insetos também – são mais de 70 mil insetos montados e perto de 2 milhões de insetos coletados sendo estudados progressivamente.

César Mendes: E algumas dessas coleções é possível acessar bem de forma eletrônica?

Mauro Ribeiro: Muitas delas estão informatizadas e todas estão associadas ao Sistema Brasileiro de Informações de Biodiversidade (SIBBr), coordenado pelo Mistério de Ciência e Tecnologia.

César Mendes: Agora, visitando o site da Reserva, mencionava lá um momento interessante a descoberta de uma espécie desconhecida e endêmica – até para nossos ouvintes entenderem a importância de uma área de conservação como essa. Porque é exatamente no contexto de uma área dessa preservada que você vai descobrir uma espécie nova, que ninguém conhecia.

Mauro Ribeiro: Isso é uma grande surpresa, dentro da capital federal, 50 anos de pesquisa e a gente descobre uma espécie de peixe nova para a ciência, endêmica daquela bacia do córrego Taquara, que é um manancial do Lago Paranoá. Mas nós temos outras espécies de peixes, de camarão, mamíferos e aves que fazem parte da lista de espécies ameaçadas de extinção do Brasil. São aproximadamente 63 espécies dessa lista de fauna e flora ameaçadas de extinção no Brasil estão protegidas na Reserva Ecológica do IBGE.

César Mendes: Sobre a efeméride dos cinquenta anos. O que está sendo programado? Na verdade, você tinha me explicado que é um ano de comemorações.

Mauro Ribeiro: É um ano de comemorações. Começou em dezembro do ano passado, com um grande evento. A gente fez a divulgação de uma publicação que faz um balanço de 50 anos de gestão da área. Foi feito um podcast junto com os autores. Está gravado e disponível pela internet no site do IBGE. Tem uma outra publicação, que faz um outro balanço em dados. A gente tem os registros administrativos de todas as nossas ações: pesquisa, conservação, manutenção da área, ensino. Nós também somos uma área de ensino. Para você ter uma ideia, com quase 15 mil estudantes que já passaram pela área, tendo aulas de campo, cursos de campo em ecologia. Estudantes de diferentes universidades do Brasil e do exterior que escolhem a reserva como palco de estudos. Esses dados administrativos vão constar em outro livro que será a gestão em dados (50 anos de gestão em dados) sobre a Reserva Ecológica do IBGE.

César Mendes: Quer dizer que essa comemoração começou em dezembro e vai terminar em dezembro de 2026? E assim, para os ouvintes e eventuais pesquisadores que queiram acessar a Reserva, ou professores que queiram levar turmas para conhecer essa área tão importante aqui no Distrito Federal. Como que as pessoas fazem? Ela entra em contato com o IBGE, como é isso?

Mauro Ribeiro: Ela pode entrar em contato conosco via nossa página na internet, tem todas as orientações. Manda um e-mail para a gente também e solicita a visita. Então, a gente agenda essa visita e recebe essas pessoas e mostra o que elas quiserem ver: vista de campo, as coleções, as exposições do acervo, a área urbanizada.

César Mendes: O e-mail é o [email protected]. Explica onde ela está situada, por favor.

Mauro Ribeiro: Ela está na parte Sudoeste do DF, a 26 Km da Rodoviária de Brasília. Você tem dois acessos: pela DF-001 (Estrada Parque Contorno), Km 38. Ou pela saída sul do DF (Rodovia BH-RJ), entra pela área Alfa da Marinha e vem pela DF-001. Só entra se tiver autorizada. Essa é uma diferença para as outras Unidades de Conservação que recebem visitação paga. A gente tem o prazer de receber a sociedade e é um dever nosso.

Mais informações: www.recor.ibge.gov.br